Aves de Rapina

30/05/2011 10:53

Aves de Rapina

 

 

 

Aves

Nota. Esse artigo online é continuamente atualizado e revisado logo que resultados de novas pesquisas científicas tornam-se disponíveis. Portanto, apresenta as últimas informações sobre os tópicos abordados.

Em muitos livros sobre a natureza, os gaviões, corujas e falcões são descritos como inimigos dos pássaros. Esta noção simplista surgiu do fato de que muitas dessas aves de rapina matam e se alimentam de pássaros. Entretanto, o mundo real nunca é tão simples como mostrado nos livros. Sob determinadas circunstâncias, os gaviões, corujas e falcões na verdade protegem os pássaros e aumentam sua sobrevivência.  Isso ocorre, por exemplo, quando certos pássaros constroem ninhos próximos aos ninhos de gaviões, corujas ou falcões, e essas aves de rapina espantam predadores de seus próprios ninhos, deste modo, espantando predadores do ninho de outros pássaros incidentalmente (Haemig, 2001).

Neste artigo, citamos muitos exemplos de pássaros que constroem ninhos com gaviões, corujas ou falcões, e reexaminaremos vários estudos que mostram que esses pássaros realmente aumentam a sobrevivência de seus próprios ovos e ninhadas quando constroem ninhos com essas aves de rapina. Ao apresentar essas informações ao leitor, agrupamos os vários estudos pela área geográfica onde foram realizados: Japão, Europa, América do Norte, Ártico (extremo norte da Europa, Ásia e América do Norte). Não foi possível incluir todas as partes geográficas do mundo pelo fato de que estudos detalhados terem sido realizados em apenas algumas áreas. Entretanto, predizemos que este fenômeno ocorre em todo o mundo, com muito mais espécies de aves de rapina e outros pássaros do que sabemos atualmente.

Japão

Em Honshu central, no Japão, Uchida (1986) encontrou ninhos ativos de pardais-monteses (Passer montanus) a uma distância de vários metros de 4 dos 11 ninhos de gavião-de-face-cinza (Butastur indicus) e próximo de 4 dos 6 ninhos de falcão-abelheiro (Pernis apivorus).  Uchida também estudou 10 ninhos do gavião japonês (Accipiter gularis), e freqüentemente observou bandos do pega azul (Cyanopica cyana) próximos a eles. Também encontrou ninhos de pega a 10 metros de 5 ninhos do gavião. Contudo, Uchida não encontrou ninhos de pássaros canores próximos aos 19 ninhos de açor (Accipiter gentilis) visitados.

Nos bairros de Tóquio, Ueta (1994ab, 1998) investigou mais detalhadamente a associação de ninhos de pegas azuis com os gaviões japoneses (Accipiter gularis), e reuniu provas convincentes de que os gaviões protegem os pegas. Nos habitats onde os gaviões viviam, mais de 50% dos ninhos de pega foram construídos a 20 metros de um ninho de gavião, e mais de 75% foram construídos a 40 metros de distância. A taxa de predação sobre os ninhos do pega aumentava à medida que o ninho de gavião se distanciava. Por exemplo, apenas 2% dos ninhos do pega localizados a 20 metros de um ninho de gavião foram atacados e arrebatados por predadores, enquanto 50% dos ninhos localizados de 40 a 60 metros e 75% dos ninhos a 80 ou 100 metros foram arrebatados por predadores. Quando os gaviões abandonavam seus ninhos, ocorria um aumento na taxa de predação sobre os ninhos do pega associados aos dos gaviões (Ueta, 1994b). Os ninhos de pega construídos a 100 metros de um ninho de gavião estavam menos escondidos (possuíam menos folhas de cobertura) do que os ninhos mais afastados dos pegas.

Ueta também constatou algumas mudanças de comportamento quando as pegas-azuis reproduziam-se em associação aos gaviões-japoneses. As pegas que construíam ninhos próximos aos ninhos do gavião sincronizavam sua época de nidificação com a dos gaviões, enquanto as pegas que se encontravam afastadas dos ninhos de gaviões não o faziam (Ueta, 2001). As pegas que construíam ninhos sem os gaviões geralmente defendiam seus ninhos de predadores, enquanto as associadas aos gaviões geralmente não o faziam e, por esse motivo, podiam alimentar melhor a ninhada (Ueta, 1999). Por fim, os ninhos de pega construídos no perímetro de 100 metros dos ninhos de gaviões estavam menos escondidos (havia menos folhas de cobertura) do que os ninhos de pega mais afastados.

Europa

Na Espanha, Blanco & Tella (1997) estudaram os ninhos das gralhas de bico vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) associados aos peneireiros das torres (Falco naumanni), e constataram que os ninhos de gralha construídos juntos às colônias de peneireiros tiveram duas vezes mais sucesso do que os construídos fora desta área (a maioria dos ninhos de gralha que sucumbiram fora das colônias de peneireiros sofreu ataque de predadores). Blanco e Tella também fizeram uma experiência na qual colocavam um bufo real (Bubo bubo) empalhado a 20 metros dos prédios onde os ninhos dos peneireiros e das gralhas foram construídos para comparar suas reações ao mesmo predador. Os peneireiros detectaram o predador em todos os 19 testes, enquanto as gralhas os detectaram em apenas dois testes. Entretanto, mesmo nos dois últimos testes, as gralhas demoraram mais tempo para detectar o predador do que os peneireiros.

Em vários países da Europa, constatou-se que o pombo torcaz (Columba palumbus) constrói ninhos em associação com a ógea européia (Falco subbuteo) (Collar, 1978; Bijlsma, 1984; Bogliani et al., 1992, 1999). Nas plantações de álamo ao norte da Itália, Bogliani et al. (1999) realizaram uma experiência na qual colocaram imitações de ninhos do pombo torcaz (com ovos de codorna) a distâncias variadas dos ninhos de ógea para observar quais seriam encontrados por predadores. Após 6 dias, a sobrevivência dos ovos nesses ninhos falsos foi verificada. Durante o tempo em que as ógeas chocavam, e quando sua ninhada tinha menos de 15 dias de vida, a taxa percentual de sobrevivência dos ovos nos ninhos imitação de pombo foi a mesma em todas as distâncias dos ninhos de ógea. Entretanto, depois que a ninhada da ógea atingiu 15 dias de vida, a intensidade de defesa do ninho pela ógea mãe aumentou até o ponto em que reduziu a ação dos predadores sobre os ninhos imitação de pombo localizados próximos aos ninhos de ógea. Naquele momento, apenas 20% dos ninhos localizados a menos de 50 metros dos ninhos de ógea perderam ovos para predadores, enquanto 70% dos ninhos localizados a mais de 100 metros dos ninhos de ógea perderam ovos. Dentro do raio de 50 metros dos ninhos de ógea, a predação sobre os ninhos imitação de pombo diminuía quanto maior a proximidade dos ninhos de ógea.

Bogliani e seus colaboradores também examinaram os ninhos dos pombos reais próximos aos ninhos de ógea. Até 6 ninhos de pombos ativos foram encontrados nas proximidades de cada ninho de ógea ativo. Os pombos que construíam ninhos longe dos ninhos de ógea, escondiam-nos com folhagens, ao passo que os pombos que faziam ninhos próximos aos ninhos de ógea não os escondiam. Mais de dois terços dos pombos punha ovos quando as ógeas estavam chocando, aparentemente sincronizando o período em que sua própria ninhada permaneceria no ninho com o momento em que as ógeas defendiam seus ninhos mais vigorosamente. Apesar de esses resultados mostrarem que as ógeas reduziram a ação dos predadores sobre os ninhos de pombos, o relacionamento nem sempre foi positivo para os pombos. Bogliani e seus colaboradores coletaram os restos das presas embaixo dos ninhos de ógea estudados e observaram que os pombos representavam 15% do total de pássaros capturados e consumidos pelas ógeas (calculados por peso total). Os pesquisadores concluíram que os pombos que construíam ninhos próximos às ógeas estavam vulneráveis à predação por elas, porém, que os benefícios do maior sucesso dos ninhos superavam os riscos porque havia outros predadores de ninhos em abundância na área.

Na Finlândia, o maçarico real (Numenius arquata) constrói ninhos em associação com o peneireiro vulgar (Falco tinnunculus) (Norrdahl et al., 1995). Considerando-se que o peneireiro não é grande o suficiente para atacar maçaricos adultos, ele ataca seus filhotes (e vários outros animais pequenos). Estabelecendo, portanto, um preço para a proteção dos maçaricos. Em uma área de estudo nos campos de Ostrobothnia, Finlândia, Norrdahl et al. (1995) constataram que 5,5% da alimentação dos peneireiros consistia em filhotes de maçarico que saíam da casca, enquanto outros predadores de ninhos destruíam 9% dos ninhos de maçaricos. Portanto, esses pesquisadores concluíram que seria melhor para os maçaricos construírem ninhos sob a proteção do peneireiro do que sozinhos. Para aprofundar os estudos sobre a predação sobre os ninhos do maçarico e sua proteção pelos peneireiros, Norrdahl et al. (1995) construíram ninhos artificiais de maçarico (com ovos de galinha marrons) e os colocaram a intervalos no raio de 1.200 metros dos ninhos de peneireiros. Constataram que a predação de ovos era maior quanto maior a distância dos ninhos de peneireiros.

Ártico

Nas regiões árticas da América do Norte, Europa e Ásia, várias espécies de gansos e patos fazem ninhos em associação com os bufos brancos (Nyctea scandiaca), os búteos calçados (Buteo lagopus), os falcões peregrinos (Falco peregrinus), os falcões gerifalte (Falco rusticolus) e os esmerilhões (Falco columbarius). O bufo branco e o búteo calçado alimentam-se principalmente de lemingues (Lemmus e Dicrostonyx) e, por esse motivo, geralmente não se reproduzem nem aninham-se com sucesso quando as populações de lemingues estão baixas. Quando isso ocorre, os pássaros que constroem ninhos sob sua proteção devem procurar outros protetores ou sofrerão imensamente com o aumento do ataque dos predadores sobre seus ovos e filhotes (Summers et al., 1994; Tremblay et al., 1997). Felizmente, o falcão peregrino, o falcão gerifalte e o esmerilhão geralmente se reproduzem uma vez por ano e podem ser uma fonte de proteção mais confiável do que os bufos brancos e búteos calçados.  Contudo, esses falcões não são tão abundantes como antigamente (devido às atividades humanas) e desapareceram de muitas áreas.

Os pássaros que constroem ninhos em associação com o bufo branco incluem o ganso das neves (Chen caerulescens), o ganso de faces pretas (Branta bernicla), o ganso de pescoço ruivo (Branta ruficollis), o eider (Somateria mollissima) e o eider real (Somateria spectabilis) (Syroechkovskiy, 1977; Syroechkovskiy et al., 1991; Litvin, 1985; Dorogoi, 1990; Summers et al., 1994, Menyushina, 2000; Ebbinge e Spaans, 2002; Quinn et al., 2003). Parmelee (1972, 1992) relata que no Canadá, várias raças do ganso das neves fazem ninhos "nas proximidades dos ninhos dos bufos brancos, mesmo que existam ilimitadas áreas para que os gansos possam se aninhar [em outros locais] e os bufos geralmente começam a construir ninhos antes de sua chegada."  Pesquisas subseqüentes mostraram que os ninhos dos gansos-das-neves são mais bem-sucedidos quando encontram-se a uma distância de várias centenas de metros dos ninhos do bufo-branco, em comparação a quando não o fazem (Lepage et al., 1996; Tremblay et al., 1997; Bêty et al., 2001). Dizem que os bufos brancos "atacam quase tudo o que consideraram ameaçador a seus ovos ou ninhada ... até um quilômetro de distância do ninho (Parmelee, 1992)." Exemplos ilustram este ponto. Tremblay et al. (1997) observaram um bufo branco atacando um lobo ártico (Canis lupus) a 750 metros de seu ninho, afastando-o com sucesso. Summers et al. (1994) constataram que os bufos brancos geralmente excluem as raposas polares (Alopex lagopus) dentro de um raio de 200 a 300 metros de seus ninhos, e até 500 metros nos anos de abundância de lemingues.

Bêty et al. (2001) realizaram uma experiência em campo para comprovar a idéia de que os bufos-brancos reduzem o risco de predação dos gansos-das-neves, quando estes últimos constroem ninhos próximos aos seus. Eles colocaram ninhos e ovos artificiais de gansos a várias distâncias (inferiores a 550 m) dos ninhos dos bufos-brancos, e também em áreas de controle sem bufos-brancos. Após 17 dias, 38% dos ninhos foram atacados por predadores na área dos ninhos do bufo-branco, enquanto 100% dos ninhos sofreram ataques nas áreas de controle onde não havia ninhos de bufos-brancos. A cifra de 100% da zona de controle foi atingida em apenas 6 dias.

Na ilha Vaygach, na Rússia Ártica, foi relatado que o ganso de faces brancas (Branta leucopsis) constrói ninhos em associação com o búteo calçado (Syroechkovskiy et al., 1991). Em 1986 e 1987, quando os búteos calçados daquele local não tiveram filhotes devido à escassez da população de lemingues, menos de 5% dos ninhos dos ganso de faces brancas obtiveram sucesso (a maioria dos ninhos de gansos foi atacada por raposas polares). Entretanto, em 1988, quando a quantidade de lemingues se manteve média e os búteos calçados construíram ninhos, 77% dos ninhos do ganso de faces brancas obtiveram sucesso. Neste último ano, os pesquisadores encontraram 10 colônias diferentes de gansos de faces brancas, cada uma contendo até 20 ninhos. Todos estavam localizados próximos aos ninhos de búteos calçados (Syroechkovskiy et al., 1991). Outros pássaros conhecidos por construírem ninhos em associação com o búteo calçado são o ganso de pescoço ruivo, o ganso grande de testa branca (Anser albifrons) e o ganso das neves (Kretchmar, 1965; Dement'ev e Gladkov, 1967; Parmelee, 1972).

No Ártico, as associações de ninhos de pássaros com falcões, para proteção, não foram estudadas tanto quanto os de corujas e gaviões. Entretanto, há provas suficientes que sugerem que alguns pássaros são protegidos. Por exemplo, na Rússia Ártica, o ganso de pescoço ruivo faz ninhos em colônias a 100 metros dos ninhos do falcão peregrino(Kretchmar, 1965; Dement'ev e Gladkov, 1967; Prop e Quinn, 2003), e o ganso grande de testa branca às vezes constrói ninhos próximo aos dos esmerilhões e de outros falcões (Dement'ev e Gladkov, 1967).  Quinn e Kokorev (2002) reportaram que os ninhos do ganso-de-pescoço-ruivo localizados a menos de 20 metros de um ninho de falcão peregrino nunca sofriam ataque de predadores, e que a probabilidade de um ninho de ganso ser atacado por outros animais aumentava conforme a distância de um ninho de ave de rapina.  Na Lapônia sueca, Wiklund (1982) constatou que os tordos zonais (Turdus pilaris) que construíam ninhos próximos aos esmerilhões perdiam menos ninhos para predadores e, portanto, produziam mais filhotes por ninho, em média, em comparação aos tordos zonais que se nidificavam sem os esmerilhões. Essa associação também beneficiava os esmerilhões porque os falcões tinham, em média, um filhote a mais por par de esmerilhão quando construíam ninhos próximos aos tordos zonais do que quando os construíam mais afastados (Wiklund, 1979, consulte também Slagsvold, 1980ab).